No dia 10 de agosto, fomos convidados pela Sato Company para uma cabine de imprensa exclusiva para conferir o filme Akira antecipadamente, e agradecemos o convite. Akira em 4K chegou dia 27 de agosto nos cinemas.
Em Akira acompanhamos a vida de um grupo de amigos de jovens motoqueiros, e após um acidente com um deles (Tetsuo) tudo muda, isso por que Tetsuo acaba desviando de uma criança com a pele envelhecida. Será que nessa versão 4K, Akira conseguiu transmitir toda a complexidade dessa história ou intensificou isso ainda mais?
Akira se passa em Neo Tokyo, uma cidade que foi construída após a destruição da antiga Tóquio em 1988. Apesar de ser uma metrópole reconstruída e com um grande avanço tecnológico, ela passa por grandes problemas como violência, gangues, protestos, terrorismo, conflitos políticos, militarização e experimentos científicos secretos. E é nesse ambiente que servirá de plano de fundo para nossos protagonistas viverem seus maiores pesadelos.
Kaneda e Tetsuo são os protagonistas dessa história, e apesar de serem grandes amigos e até compartilharem motos e uma gangue juntos, são completamente diferentes. E essa amizade começou desde muito cedo, quando Kaneda em uma atitude altruísta acabou salvando e protegendo Tetsuo que estava sofrendo bullyng, dando-lhe um lugar de conforto e aceitação.
Kaneda é confiante, carismático, impulsivo, e passa a impressão de alguém superior e mais forte, e por consequência acaba se tornando o líder da gangue. Ele também tem uma postura mais protetora em relação ao Tetsuo, e apesar dele ter boas intenções e não ver maldade nisso, isso tem consequências diretas tanto na amizade dos dois como no desenvolvimento da trama.
Tetsuo por outro lado, é inseguro, e passou a vida toda sendo inferiorizado, sempre passando a ideia de que precisava ser protegido, como alguém frágil ou mesmo alvo. E ironicamente ele é protegido por Kaneda, mas apesar de ter boas intenções, isso sempre o faz se sentir a sombra do amigo, e nunca visto como principal.
E todas as consequências desses sentimentos ruins guardados por anos, ficam ainda mais visíveis quando Tetsuo desenvolve seus poderes. Suas inseguranças, ressentimentos e frustrações, tornam combustível para seu poder crescer cada vez mais. Pela primeira vez, ele deixa de ser aquele que precisa ser protegido e passa a se ver como alguém capaz de tudo, até mesmo de superar Kaneda, mudando completamente a relação entre eles.
Apesar de dar nome ao filme, Akira permanece em segundo plano e quase não aparece boa parte do filme, sendo mencionado apenas em alguns momentos e tratado como um grande perigo, algo que deve ser evitado.
No passado, Akira foi uma das crianças que passou por experimentos para desenvolver poderes psíquicos, seus poderes alcançaram proporções tão grandes que acabaram ligados a destruição da antiga Tokyo. E é essa mesmo poder que se torna referência para o que está acontecendo com o Tetsuo, já que ele tem um potencial semelhante e cada vez mais perde o controle.
Akira foi lançado em 1988, e até hoje impressiona pela sua qualidade visual e de animação. Para época que ele foi produzido, foi uma aposta extremamente ambiciosa, apresentando uma movimentação muito fluída, cenários com um rico nível de detalhes e uma paleta de 327 cores, sendo 50 cores criadas exclusivamente para o filme.
Mas, mais que brilhar em questões técnicas, ele se destacou na sua identidade visual única, que atravessou gerações, servindo de inspiração para várias animações e filmes. Além disso o seu impacto também mudou a forma do ocidente de ver o anime.
Trazendo para os dias atuais, o que ainda impressiona é como Akira sabe usar seus aspectos visuais para dar vida a essa grande metrópole. Tudo parece estar constantemente em movimento, seja através das pessoas, do trânsito ou das perseguições de moto.
Nessas sequências é que a animação chama mais atenção, transmitindo velocidade e peso, enquanto deixam rastros de luz provocados por seus faróis criando uma das imagens mais marcantes do filme. Tudo isso cria a ideia de Neo-Tóquio seja uma metrópole gigante, tecnológica e viva, mas ao mesmo bastante caótica e cheia de perigos.
Essa sensação também aumenta junto com a história, o filme começa acompanhando eventos pequenos, como a briga dos nossos motoqueiros, mas depois muda o foco para perseguições militares, manifestações populares, base secreta que conduz experimentos, escalando até os poderes de Tetsuo tomando proporções catastróficas.
A direção visual acompanha esses eventos perfeitamente, utilizando-se de grandes cenários, explosões, destroços e diferentes enquadramentos para demonstrar o tamanho do caos e da destruição, fazendo que os próprios personagens pareçam pequenos diante dessa cidade e das forças que enfrentam.
Mas é quando Tetsuo começa a perder o controle dos próprios poderes, que conseguimos ver outra faceta dessa animação, seu lado perturbador. Essa perda de controle não reflete só em suas emoções, mas também fisicamente em seu corpo que vai se deformando de forma grotesca, e crescendo descontroladamente.
O resultado dessa transformação são as consequências de Tetsuo por ter um poder que julgou poder controlar, mas que o acaba consumindo por completo. O que começou como uma saída divina da sua vida medíocre, cobra um preço muito alto.
Infelizmente não tive contato com a versão de 1988 da animação, então fica difícil fazer um parâmetro entre as duas versões e apontar quais as melhorias foram trazidas nessa nova versão e as principais diferenças. Mas o que é possível notar é que as cores, a fluidez da animação e principalmente o nível de detalhes de Neo-Tokyo continuam impressionantes mesmo décadas depois. Tornando a experiência divertida, alucinante e intrigante.
Acerca das melhorias trazidas nessa nova versão, ele passou por um novo escaneamento e remasterização em 4K, a partir do material em 35 mm, trazendo uma melhora das linhas, texturas e detalhes presentes nos desenhos e cenários. A imagem recebeu tratamento HDR, ampliando a riqueza das cores, da iluminação e do contraste. A animação não teve mudanças, permanecendo a mesma, entretanto o 4K valorizou o trabalho já feito em 1988 em vez de substituí-lo.
A trilha sonora de Akira não passa despercebida. Composta pelo Geinoh Yamashirogumi, ela utiliza bastante percussão, vozes e sonoridades pouco convencionais, criando uma identidade quase ritualística que combina perfeitamente com o clima de estranheza, caos e a grandiosidade do filme. Mais do que acompanhar as cenas e os acontecimentos, a trilha ajuda a construir a atmosfera e complementar as cenas, em alguns até serve para demonstrar o estado emocional dos personagens.
Um dos momentos que isso fica mais evidente, é quando Tetsuo foge do hospital, confuso e sofrendo com fortes dores de cabeça, enquanto seus poderes começam a se desenvolver. A trilha acompanha isso perfeitamente, se tornando estridente e incômoda, com batidas repetitivas transmitindo claramente o desconforto e desorientação do personagem.
Tetsuo ainda não entende o que está acontecendo com sua mente e seu corpo, e nem o custo desse novo poder, e a música ajuda a transmitir essa luta interna do personagem.
O áudio complementa essa experiência através dos motores das motos, explosões, destruição e manifestações dos poderes, dando peso aos acontecimentos e a própria escala de Neo-Tokyo. Akira não traz uma trilha sonora que faz vc sair do cinema cantando, mas é uma trilha que te causa desconforto, e te faz sentir durante o filme, se tornando parte fundamental da experiência.
Assistir Akira em 4K foi uma experiência incrível, principalmente para mim, que teve sua primeira experiência vendo a animação com essa nova versão. Apesar de ser uma animação lançada em 1988, ela está longe de ser maçante, chata ou algo ultrapassado. Ao contrário, sua animação, direção visual, trilha sonora e principalmente como Neo-Tokyo é construída acompanhando nosso grupo de personagens, fica fácil compreender porque Akira se tornou tão marcante na sua época e continua sendo até hoje.
Essa nova versão em 4K acaba sendo uma excelente oportunidade tanto para novas pessoas conhecerem e admirarem essa obra tão cultuada, como também serve para os fãs mais saudosos voltarem ao cinema e reassistirem o filme em uma maior qualidade. E para pessoas como eu que nunca assistiram o filme, é uma chance de finalmente conhecer a obra e entender porque Akira marcou época e se torna relevante até hoje.
Akira estreou dia 27 de agosto nos cinemas brasileiros. Confira o trailer abaixo:
Agradeço novamente a Sato Company pelo convite da cabine de imprensa.
Akira em 4K - Em cartaz nos cinemas brasileiros
Nota Final
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Ideia e Roteiro - 9/10
9/10
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Fotografia, Figurino e Efeitos Visuais - 9/10
9/10
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Áudio e Trilha Sonora - 9/10
9/10
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Adaptação e Atuação - 8/10
8/10
VOTAÇÃO POPULAR ➡️
0 (0 votes)CONSIDERAÇÕES FINAIS
Akira não se tornou uma das obras primas das animações de graça. Mesmo após décadas depois de seu lançamento, o filme continua impressionando pela qualidade da sua animação, pela construção de Neo-Tokyo e pela maneira como utiliza seus personagens e esse mundo, para debater temas como poder, inferioridade e perda de controle. A versão 4K so amplificava esses conceitos e a parte visual.































