Fomos convidados pela Atomica Lab para uma cabine virtual exclusiva para conferir o filme Desejo em Manhattan. No longa acompanhamos Clay, um homem que está em conflito, tanto em seu casamento, como também da sua própria identidade, entre o que ele verdadeiramente é e quem ele deve ser em uma sociedade de brancos. Desejo em Manhattan lançou dia 6 de agosto no streaming Filmelier+.
Em Desejo em Manhattan (The Dutchman), acompanhamos a história e a vida de Clay, um homem negro que é bem sucedido como empresário, e por isso tem o carinho e a admiração de muitos da sua comunidade, até como se fosse tratado como um exemplo de como um homem deve ser e se portar. Mas isso é porque ele mascara muito bem seus conflitos e como se sente.
Mas tudo muda quando ele começa a ter problemas no casamento, após descobrir a traição de sua esposa Kaya, que ironicamente exige uma reação dele, eles acabam indo a uma terapia de casal, e mesmo diante do terapeuta Clay parece muito contido. Como se passasse por um conflito interno gigantesco, o filme sabe demonstrar isso em uma analogia muito boa, onde Clay se vê em cima do muro, nem fiel a si mesmo, nem fiel a versão que esperam dele.
A virada de chave acontece de vez, quando Clay voltando para casa de metro encontra Lula, uma bela mulher ruiva e sedutora, que parece saber mais sobre ele do que aparenta, e que também vira sua vida de cabeça pra baixo.
Desejo em Manhattan é uma adaptação baseada na peça homônima de 1964 de Amiri Baraka, onde nós faz refletir sobre a violência que homens negros sofrem nas grandes cidades, de forma sutil e as vezes nem tanto.
A primeira aparição de Lula é no metro, quando Clay esta tentando voltar pra casa. E o que começa como uma conversa inocente, uma troca de olhares, acaba desandando muito rápido.
Lula se apresenta como uma mulher extremamente atraente e segura de si, e o mais assustador é ela parecer conhecer Clay, não de uma forma rasa, mas profundamente, como se pudesse ver sua alma, saber de coisas dele que ele mesmo quis esconder a vida toda.
Depois desse primeiro encontro, Lula se torna uma presença constante, acompanhando Clay para todos os lugares, mesmo que isso o deixe incomodado ou se torne inconveniente.
O que começa como uma conversa intrigante e ate sedutora, vira um verdadeiro pesadelo, Lula parece brincar com Clay constantemente, o seduzir, o provocar, e trazer tudo aquilo que ele esconde a tona, seus desejos, seus anseios e sua raiva. Mas ela também demonstra que apesar de ser uma frágil mulher, está no controle, por ser uma mulher branca em uma sociedade de brancos, diferente de Clay que qualquer deslize pode custar tudo, tanto sua posição social como sua vida.
Com isso, Lula e Clay ficam nesse suposto relacionamento, abusivo, controlador e de pura manipulação. Onde Lula tem Clay nas mãos e sob controle, passando por várias situações e vivendo dia a dia. Não aguentando tanto controle, provocações e deboche, Clay finalmente começa a tentar revidar e até explodir.
Clay está em conflito não apenas pelo seu casamento, e sim por estar tendo uma crise de identidade, como dito anteriormente, está dividido entre quem ele é e quem ele deve ser, isso porque ele é um homem negro vivendo em uma sociedade de brancos.
Por mais que ele seja um empresário de sucesso, um homem com bons valores e até seja casado e bem visto pela sociedade, esse não é quem ele é de verdade. Clay se sente constantemente pressionado a se comportar de maneira correta para provar que pertence a esse mundo, seja na forma de agir, de sentir, de falar e de até demonstrar suas emoções, fazendo que ele reprima traços da sua identidade.
Isso fica evidente tanto ao longo do filme, quanto nas investidas e nos jogos de poder de Lula, que consegue atingir onde mais dói : suas inseguranças e seus receios. Ela ameaça quebrar essa imagem de vida perfeita que Clay construiu e o força a confrontar partes de si mesmo que tenta manter escondidas a todo custo.
Assim fica evidente que o conflito de Clay não é apenas com Lula, mas sim consigo mesmo e uma sociedade que tenta reprimi-lo e força-lo a ser quem ele precisa ser para ser aceito por ela.
Se tratando de simbolismo, nenhum é mais forte que o personagem de Lula, que não é apenas uma bela mulher branca e sedutora, ela é a personificação dessa sociedade branca, que ao mesmo que seduz, pode ser esmagadora. Primeiro ela tenta atraí-lo e até parece aceitá-lo, para depois atacar justamente suas fragilidades, medos e frustrações e tudo aquilo que ele tenta esconder para continuar pertencendo a esse mundo.
Lula não cria as inseguranças de Clay e nem o conflito que ele está, mas é responsável por colocá-las para fora, o deixando cada vez mais vulnerável. Ela percebe a necessidade de Clay por aceitação, sua identidade ambígua e o medo de tudo ruir. E usa desse medo para ter controle sobre ele, para continuar seus joguinhos de manipulação e o deixar cada vez mais no limite.
Outro simbolismo interessante está na maçã que Lula oferece a Clay, ao mesmo tempo que isso demonstra uma tentação e remete a Eva e a maçã, isso também funciona como um convite ao maior desejo do coração dele, ser verdadeiramente aceito. Só que ao aceitar esse convite isso o leva a enfrentar as partes de si mesmo que passou tanto tempo ignorando.
Apesar de Desejo em Manhattan tem fortes inspirações na peça de Amari Baraka de 1964, o filme não é apenas uma cópia perfeita. A peça se foca em apenas uma local, um conflito e em dois personagens, onde temos Lula e Clay apenas no metro, passando por todos esses diálogos desconfortáveis. Já no filme foi dada uma profundidade maior a Clay, fazendo ele ter uma vida, amigos, casamento, uma carreira e principalmente ficar dividido entre quem ele é e quem ele deve ser para pertencer a essa sociedade.
Essa mudança também permite trazer uma versão mais moderna de uma discussão que acontece há mais de 60 anos. A peça nasceu como uma forma de abordar o movimento dos direitos civis da época e mostra uma visão extremamente pessimista sobre o lugar do homem negro na sociedade americana. Já no filme André Gaines traz novamente essa discussão, mas questiona se o ciclo realmente precisa se repetir.
Portanto em vez de simplesmente repetir todo seu enredo e conclusão igual a peça, o filme concorda que esses conflitos ainda existem, mas dá a opção de Clay de enfrentá-los e não sucumbir a eles.
O filme em boa parte do tempo mantém um ritmo lento e contemplativo, mas não se torna maçante ou repetitivo por isso. Ele sabe equilibrar momentos de tensão, de incerteza e desconforto. Construindo isso aos poucos, seja por conversas, momentos sedutores, jogos de manipulação e controle feitos por Lula, isso vai se moldando a cada situação e encontro dos dois personagens.
Só que por outro lado quando a história adiciona fatores como o casamento de Clay, sua carreira, amigos, sua crise de identidade, terapia, questões raciais e elementos sobrenaturais, ele tenta trazer uma complexidade não é necessária. Mas em contraponto toda essa bagunça é o que nos cria a curiosidade do que é real ou não ou loucura da cabeça do Clay, e também até onde Lula irá leva-lo com tudo isso. E essa atmosfera nos prende até o fim.
Tecnicamente a fotografia é fortíssima em Desejo em Manhattan apostando bastante em sombras, escuros e contrastes, criando uma atmosfera cada vez mais sufocante. A trilha sonora utiliza-se de cordas e uma sonoridade ameaçadora para criar a sensação de que existe algo errado, mesmo nos momentos tranquilos.
Mas são nas atuações que o filme brilha. De um lado temos André Holland que interpreta Clay perfeitamente, demonstrando com precisão sua raiva, seu conflito e a fragilidade. Enquanto Kate Mara traz a vida Lula, que sabe brincar as emoções de Clay, entre muitos jogos psicológicos, situações e momento que se dividem sedução e ameaça, ela rouba cena. E quando esses dois estão em cena o filme encontra seu ápice.
Desejo em Manhattan tem seu diferencial não deixando tudo mastigadinho para o espectador, onde quem o assiste terá que tirar suas próprias conclusões e interpretações. Trazendo discussões relevantes referentes a temas como racismo, crise de identidade, pertencimento, mais do que apenas um conflito entre dois personagens. O ponto mais alto do filme, está na relação de Clay e Lula, onde a cada encontro, cada conversa e cada situação vivida, vai se construindo uma relação baseada em um jogo de poder e controle, manipulação e sedução, onde as fragilidades e os conflitos de Clay são explorados até chegar ao limite.
Apesar disso o filme trabalha com vários simbolismo e ideias diferentes ao mesmo tempo, que podem deixar a experiência confusa e excessiva, já que algumas delas não são bem trabalhadas ou desenvolvidas. O ritmo mais contemplativo também pode acabar não funcionando para todos.
Não é um filme para todo mundo, mas apesar de algumas falhas está longe de ser um filme ruim ou que não valha ser visto. E claro Desejo em Manhattan é aquele filme que ficará na sua cabeça mesmo após acabar, criando teorias e discussões que o que tal parte ou momento significa, e o que Lula realmente significa.
Desejo em Manhattan já esta disponível no Filmelier+ desde o dia 6 de agosto. Confira o trailer abaixo:
Desejo em Manhattan - Filmelier+
Nota Final
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Ideia e Roteiro - 7.5/10
7.5/10
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Fotografia, Figurino e Efeitos Visuais - 7/10
7/10
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Áudio e Trilha Sonora - 8/10
8/10
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Adaptação e Atuação - 8/10
8/10
VOTAÇÃO POPULAR ➡️
0 (0 votes)CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desejo em Manhattan apresenta falhas e tem um ritmo contemplativo que pode desanimar, mas apesar disso ele te ganha na dupla de protagonistas, onde nos presenteia com vários momentos de sedução e ameaças. O que começa como uma paquera inocente no trem, pode acabar revelando os maiores pesadelos e fragilidades de Clay, abordando temas relevantes e trazendo discussões que ainda hoje são necessárias.



































